Carta para um bailarino dos silêncios
Meu querido,
Hoje o vento atravessou a casa com aquele mesmo sussurro que trazia teus escritos. Sentada junto à janela, como tantas vezes estive esperando um sinal teu — um poema, um link, um desabafo ou só o sutil "oi" — percebi que ainda danço contigo.
Penso nas vezes em que tua voz — mesmo calada — preenchia os vazios entre as teclas. Estávamos separados pelo tempo, pela distância, pela dor crônica que te habitava desde tão jovem, mas unidos por algo que nem mesmo as redes sociais conseguiram conter: o espanto de se encontrar em outro.
Dançávamos com palavras. Nos víamos inteiros nos versos que trocávamos. E apesar da linguagem ser muitas vezes enigmática, metafórica, sabíamos. A verdade já não se escondia. Tanto que aquela amiga exclamou: “Escancara, poeta!” Mas já estava tudo dito, mesmo que escrito em véus.
Lembro da tua queda no pátio da reitoria. Tua tentativa de autonomia virou metáfora da nossa condição: querer ir além dos limites impostos pelo corpo, pela vida, pelo tempo. Naquele dia, tua dor atravessou a tela e tocou minha carne. Não te apartei, mas te amparei como pude — com poesia, com presença.
Havia em ti algo de Espinoza — esse teu cuidado racional com o corpo e com as paixões. Acreditavas no poder do afeto como extensão da existência. E eu, que sempre amei por entre os papéis, senti-me acolhida na tua filosofia encarnada.
Hoje, nesse palco hodierno de ausências, onde as redes se calaram e o tempo deixou suas rugas nas entrelinhas, ainda te escrevo. Talvez porque escrever para ti seja continuar contigo.
Ainda vejo teus olhos espantados e teus passos trôpegos tentando seguir o ritmo que a vida não permitiu. Mas para mim, foste e és bailarino — dos silêncios, dos afetos, das entrelinhas.
Se um dia esta carta encontrar teus olhos ou tua memória, que saibas: continuo dançando. Mesmo sem os sapatos. Mesmo sem a música. Mesmo com o corpo cansado.
Com o mais terno dos compassos,
Tua parceira de poesia, de pista e de espera.

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