sexta-feira, 18 de abril de 2025

 Carta para um bailarino dos silêncios

Meu querido,
Hoje o vento atravessou a casa com aquele mesmo sussurro que trazia teus escritos. Sentada junto à janela, como tantas vezes estive esperando um sinal teu — um poema, um link, um desabafo ou só o sutil "oi" — percebi que ainda danço contigo.
Sim, danço. Embora meus pés não toquem o chão com a mesma leveza, é em mim que teu passo ressoa. Não é preciso música quando a lembrança é harmonia.
Penso nas vezes em que tua voz — mesmo calada — preenchia os vazios entre as teclas. Estávamos separados pelo tempo, pela distância, pela dor crônica que te habitava desde tão jovem, mas unidos por algo que nem mesmo as redes sociais conseguiram conter: o espanto de se encontrar em outro.
Dançávamos com palavras. Nos víamos inteiros nos versos que trocávamos. E apesar da linguagem ser muitas vezes enigmática, metafórica, sabíamos. A verdade já não se escondia. Tanto que aquela amiga exclamou: “Escancara, poeta!” Mas já estava tudo dito, mesmo que escrito em véus.
Lembro da tua queda no pátio da reitoria. Tua tentativa de autonomia virou metáfora da nossa condição: querer ir além dos limites impostos pelo corpo, pela vida, pelo tempo. Naquele dia, tua dor atravessou a tela e tocou minha carne. Não te apartei, mas te amparei como pude — com poesia, com presença.
Havia em ti algo de Espinoza — esse teu cuidado racional com o corpo e com as paixões. Acreditavas no poder do afeto como extensão da existência. E eu, que sempre amei por entre os papéis, senti-me acolhida na tua filosofia encarnada.
Hoje, nesse palco hodierno de ausências, onde as redes se calaram e o tempo deixou suas rugas nas entrelinhas, ainda te escrevo. Talvez porque escrever para ti seja continuar contigo.
Ainda vejo teus olhos espantados e teus passos trôpegos tentando seguir o ritmo que a vida não permitiu. Mas para mim, foste e és bailarino — dos silêncios, dos afetos, das entrelinhas.
Se um dia esta carta encontrar teus olhos ou tua memória, que saibas: continuo dançando. Mesmo sem os sapatos. Mesmo sem a música. Mesmo com o corpo cansado.
Com o mais terno dos compassos,
Tua parceira de poesia, de pista e de espera.
Vânia de Farias Castro
Em 11 de abril de 2023
Imagens Google

 Gosto de gentilezas

de rir com e das pequenas coisas
rir com a boca , olhos e o corpo inteiro.
Eis que de janeiro à janeiro
encontro motivos para sorrir.
Gosto de afagos, não necessariamente com as mãos
não sou nada cinestésica
Felicito-me com os afagos dos pequenos gestos, do olhar atencioso, quando percebe nossa agonia sem que articulemos palavras.
Do olhar que se alegra conosco quando superamos um desafio
Que é cúmplice para nos tirar dos pequenos embaraços que se apresentam quando em vez.
Na gentileza de não exaltar nossas fraquezas, mas de forma sutil e silenciosa ajudar a torná-las robustas
como uma mãe ajuda ao filho a dar os primeiros passos.
Sim...quantas vezes não precisamos refazer os primeiros passos desaprendidos, por medo de cair novamente ou pelas fraturas deixadas pelas quedas.
É dessa gentileza que eu gosto, sem formalidades, burocráticas
mas ritualistica e quase sacra.
atitude que vem da vontade de comprometimento com o outro, muitas vezes sem articulação de palavras.
Fico feliz quando te encontro gentileza, e sentamos na velha mesa de mármore travertino, para um chá.
Vânia de Farias Castro
Em 12 de abril de 2025
Imagens Google

Tentação de Eternidade

Tentação da Eternidade
Existem pessoas que gostaríamos que fossem eternas.
Não apenas em nossos corações e lembranças, mas na vida.
Sei que sou movida pelo egoísmo
Como atravessar gerações vendo todas as mudanças no comportamento humano sem a benesse da finitude, da pausa, pelas muitas batalhas com o mundo e consigo mesmo.
Vi a dor do Antônio Fosca.
Simone de Beauvoir talvez tenha alimentado esse desejo, mas teve a coragem de nos mostrar a dor lacerante da imortalidade do corpo físico.
Mas insisto: alguns homens são potentes em viver, corajosos nos enfrentamentos
necessarios por justiça,
Como algumas mulheres que lutaram até a morte pela conquista de alguns de nossos direitos, ou por causas que só entenderiamos no futuro, como Julia Butterfly Hill, Pela cura de doenças desconhecidas de seus filhos, por causas humanitarias e pelo direito de homens e mulheres ao conhecimento, pela manutenção de suas famílias com os laços já se esfacelando....
Senti essa vontade ególatra, ao ler o último poema de Mayakóvski, ao ver o túmulo de Rudolf Nureyev, o retrato de Guevara assassinado pelos homens pelos quais lutava.
Sinto essa vontade, ao longo dos anos, quando relembramos o martírio e assassinato do Homem que dividiu o calendário em dois tempos.
Vânia de Farias Castro
Em 14 de abril de 2025
Imagens Júlia Butterfly

Roupas e Capas de Livro

 Roupas e Capas de Livro

Dizem por aí que closet recheado é sinal de estante vazia. Ledo engano!
Meus roupeiros são abarrotados, e ainda invado os das crianças. Gosto de moda e guardo roupas que não uso há anos, mas que continuam guardadas.
Não tentem me confundir com aconselhamentos vãos; armário cápsula não significa armário vazio, mas com os chamados básicos essenciais, que podemos coordenar de inúmeras maneiras e que são atemporais.
Geralmente, não sigo tendências. Tenho a tendência de escolher o que me deixa bem, a depender da fase da vida em que transito.
Já usava roupas agêneras na minha adolescência e início da vida adulta. Costumava roubar do armário de meu padrasto suas cheirosas camisas polos e sociais, e do meu marido, as que me agradavam. Aquele coitado permitia que as usasse antes dele.
Adorava os tênis de lona e botas — ah, como amava e ainda amo botas, de diversas cores, estilos e tamanhos de cano.
Bolsas, as mais divertidas e irreverentes, algumas confeccionadas por mim ou por minha mãe, uma exímia artesã, costureira e também modista!
Só detestava e detesto marcas falsas, como sinto ojeriza por tudo que for imitação, e isso inclui gente. Couro vegetal? Nem pensar. Onde se viu árvore com couro? Mato, flores ou folhas com couro? Prefiro usar sapatos e bolsas de couro de gente falsa, ao menos o couro é original.
Adoro acessórios de lona, madeira, poliéster, polietileno, juta — ou qualquer outro material a usar o tal do couro vegetal ou outra enganação qualquer.
E chapéus? Outra paixão. Com abas largas, curtas, de palha, lona, juta, feltro e muitos estilos... Adoro boinas, bonés, toucas, viseiras — e o que couber em minha cabeça, inclusive melancia, caso eu decida usar!
Informo aos desavisados e ignorantes de plantão: chapéu não é necessariamente um guarda-sol, e sim um acessório como outro qualquer. E o mesmo serve para as botas, que podem ser usadas no frio ou no calor, na área rural ou urbana. Se não gostam, perfeito, mas não façam observações bizarras ao verem as pessoas usando.
Echarpes, pashimines, lenços e cachecóis... Como gosto desses acessórios, embora tenha nascido em lugar com um calor da mulesta!
Costumo usar roupas e acessórios como figurino ou fantasia: da artista visual, da advogada, professora, avó coruja, dona de casa, comerciante, feirante — sim, participo de feiras com artesanato e roupas usadas.
Bem, agora vamos para as estantes de livros.
Também não sou adepta do famoso "circular os livros lidos". Os meus circulam em minha própria casa, no meu escritório ou na repartição. Passeiam muito pelas clínicas, ambulatórios, consultórios médicos, bancos, fóruns e tribunais, já que cultivo o hábito de esperar sentada e lendo. Conhecem alguns estados do meu país e até de países vizinhos, mas passeiam comigo e votam comigo!
Detesto emprestar livros, e só o faço em raras exceções. As pessoas costumam confundir empréstimo com doações, portanto, prefiro comprar e presentear. E faço isso com frequência.
Se tenho livros em minhas estantes que não li? Claro! Quem não tiver, que atire o primeiro livro. Às vezes me sentia incomodada por comprar mais do que tinha tempo ou vontade para ler, mas entendi que inúmeros livros servem para consultas, e outros, para se ler a depender do momento — seja de ócio, alegria ou desespero.
Tenho muitos amigos, embora muitas pessoas acreditem que amigos não existam. Eu acredito, tenho ciência e posso provar! (Coisas de advogada.) Mas os livros, em algumas situações, têm sido, ao longo dos meus anos, bons e sinceros amigos: não são complacentes, me sacodem, puxam minhas orelhas, aconselham, guiam, me mostram partes do mundo que nunca visitei fisicamente.
São amigos que me levam a viagens incríveis, me esclarecem em momentos de confusão, me alegram, excitam, me deixam eufórica ao ponto de ter um infarto, e me consolam... Como me consolam. São amigos, mestres e companheiros. E alguns me acompanham desde a minha infância.
Outra mania é querer tudo que foi produzido por determinado autor, se o mesmo me impressionar de forma positiva. Como aconteceu com Sartre, Simone de Beauvoir e tantos outros. Por épocas, me torno a louca dos existencialistas, da Segunda Guerra Mundial, da ditadura no Brasil e na América Latina.
A louca da revolução cubana, do inolvidável Che, Jorge Amado, Marina Colasanti, Marilena Chauí, Antônio Callado, Alexander Lowen, Brian Weiss, Dominique Lapier, Eduardo Galeano, Roger Garaudi... E tantos outros.
Amo mitologia, e de inúmeros panteões. Também gosto de ler sobre a história das religiões. Quanto à filosofia e doutrina espírita, são cinquenta anos de afeto, companheirismo e aprendizado.
Como não poderia ter muitos livros? E muitas roupas e acessórios? Fazem parte de minha história, de minha eterna inquietação e curiosidade.
Como vês, pode-se conciliar um grande closet com uma grande biblioteca.
Vânia de Farias Castro
Imagens Google
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