CASO DE POLÍCIA
Juntando, e limpando os pinceis
vi quanta cor, em argamassa
os seus pelos, hoje unidos quanto a massa
que se espreme, em ruidosa lotação
uns empurram, outros reclamam do empurrão
uns se esfregam, e já levam um safanão
ou uma surra, quando o esfrega é numa jovem...
Estudava em dois turnos na Escola,
Federal, nos meus tempos de moleca
como era chamada a nossa Técnica,
da capital de nossa Paraíba.
Nossas tardes e manhãs eram uma festa
aprendendo com os mestres tão queridos
Xavier, generoso e amigo
ensinando a somar todo o afeto
nas manhãs, nosso sono ainda esperto
constrangendo os belos adormecidos...
Professores a puxarem o cobertor
com carinho, e aconchego protetor
sem a malícia, que hoje corre célere
ainda lembro como éramos alegres
no aprendizado da digna profissão...
Mainha se encontrava no hospital
eu aflita, como o ágil pica pau
assumindo os compromissos esposados
eis que um jovem se meteu a esfregar
o seu corpo, no meu a provocar
uma onça, com vara pequenina
eu vestia, um negro leotardo
já pulei como um célere leopardo
sempre arisca, desde os tempos de menina...
Uma surra que não sei como ocorreu
quando o jovem levantava, o braço meu
já subia em seu corpo machucado
não entendia o fenômeno já que eu
era jovem e mais frágil que o meu
agressor e metido a tarado...
Bem mais tarde entendi a solução
resultado de estranha equação:
um velhinho vizinho e educado
conhecia o meu estilo calado
com berrante, surgindo o provocado
se o jovem vinha em minha direção
empunhando seus braços e suas mãos
em ilegítima defesa e acuado
eu o via, baixar em oração
genuflexo, parecia em comunhão
como um santo no momento do chamado.
Mas o fato é que o milagre ocorrera
com a ajuda do velhinho que viera
em socorro de uma jovem destemida
acontece que o garoto era irmão
do motorista daquela condução
que levou todo mundo pra polícia.
Para mim, delegacia é pra bandido
os meus pés, não pisariam em seu piso
a não ser que eu fosse acorrentada.
Protestei, defendendo a posição
alegando que não era um ladrão
para entrar em ambiente molestado!
E assim fiquei firme e amburrada
e o ônibus parado, em romaria
sem um santo, só uma delegacia
em cidade pequena e amada...
Eu vermelha de ódio e emoção
minha face parecia um pimentão
e meu cérebro, em brasa já queimado
protestei, eis que era eu a vítima
e menor, envolvida numa briga
provocada por moleque assanhado.
O sargento chamado pro ocorrido
era Pedro, com a chave do Xadrez
perguntou, sem cautela e polidez
se eu era, uma moça e recatada
respondi, agora brava e revoltada
sim, era moça, eis que a pele demonstrava
as feições de uma flor desabrochando
se o mesmo perguntava se eu era virgem
não daria a resposta perquirida
pois julgava que à mulher o homem deve
o respeito esperado e devido
se eu fosse prostituta ou uma madre
não seria molestada por tarado
sem a luta necessária e aguerrida
exigia o tratamento adequado.
Nesse tempo, existia a figura
do fiscal de menor, na conjuntura
pra cuidar das querelas dos moleques
e o mesmo assustou-se com o discurso
do sargento, empinado e empedernido
já que eu era conhecida na cidade
pelos bêbados, garis, e autoridades,
e por todos, protegida e querida.
E falou com a calma de um sábio
que ali não só entrava salafrário
mas qualquer cidadão, ou mesmo jovem
para mim, estupefata e aturdida
nem um pé arredei naquela briga
Com o sargento Pedro, acanhado.
E o caso abafado, assim ficou
todo mundo para casa se voltou
e ainda hoje, rio do ocorrido
e agradeço, ao velhinho meu amigo
pela ajuda da surra no atrevido!
Vânia de Farias Castro.
Em agosto de 2017.

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